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Em geral, ao associar-se o termo direcção
à noção de cultura, o sentido que dele mais interessa
aos agentes culturais é o de rumo; o rumo das políticas
que condicionam a nossa actividade quotidiana de promoção
da produção plástica contemporânea.
A Direcção-Regional de Cultura do Algarve é a única
entidade pública de âmbito regional com responsabilidades
no fomento cultural; um serviço desconcentrado do Ministério
da Cultura. Sendo o ministério responsável pela implementação
das políticas nacionais, de acordo com os preceitos do executivo
(através da sua operacional Direcção-Geral das Artes),
ao sentido de critério deveríamos poder associar
o de liderança, por dever de lei, isenta e democrática,
na dinamização e desenvolvimento da cultura nacional.
No entanto, para nossa surpresa, quer contactando directamente a DRCAlgarve,
quer observando a sua prática e consultando a informação
disponível, percebemos atónitos que nada há neste
serviço para apoiar e promover as artes plásticas —
como de resto pouco há destinado à actividade artística
em geral. Fica assim claro que o único sentido que se poderá
encontrar na direcção da cultura algarvia é
o relativo a endereço. Na rua Francisco Horta, 9, sito
em Faro, mora a sede do alinhamento prático com a falta
de interesse e de investimento na actividade cultural.
Não restam dúvidas de que o Algarve não conta com
uma estrutura que siga atentamente as diversas acções da
cultural local — não há nenhuma instituição
ágil, aberta às dificuldades dos agentes reais, dotada com
os necessários meios, com pessoal qualificado e a autonomia suficiente
que permita defender o tecido cultural activo contra o visível
desinteresse de Lisboa.
De facto, este serviço, exilado da capital, descentrado realmente
dos seus deveres para com a região, é uma espécie
de repartição pública à moda antiga: pesada
e cataléptica, censora do que ameaça a mediocridade instalada,
mas abstraída da actividade cultural. É, de facto, uma espécie
de loja representante das entidades colonizadoras de outros tempos, noutros
lugares; uma feitoria inútil. Burocrata e conivente com Lisboa,
pelo menos implicitamente, contra o interesse algarvio, vive escondido
lá no seu beco, encarando o diálogo com os agentes locais,
por breve que seja, como enorme maçada — provavelmente por
implicar algum trabalho e o seu posterior exame público. Para cúmulo,
gasta consigo próprio muito mais do que concede ao tecido cultural
que era suposto servir.
Entre a fidelidade à tutela e a incapacidade de assumir um papel
relevante em prol da região, esta instituição —
lutando desesperadamente pela auto-preservação, fazendo
o mínimo para que não se diga que nada faz —, coadjuvada
pela proverbial inércia da incompetência municipal, tem no
entanto a atribuição de fiscalizar e avaliar (!), a actividade
subsidiada pelos parcos apoios estatais. Um dispositivo perfeito, pois,
para o estrangulamento de toda a iniciativa cultural, crítica e
livre.
Mas o mesmo espírito assombra essa outra dimensão, a DGArtes.
Também aí, proliferam os constrangimentos a qualquer desempenho
eficaz no apoio ao desenvolvimento da produção artística
no todo nacional. Dotada de meios financeiros insuficientes, desamparada
pela visão cor-de-rosa dos serviços regionais — portanto,
ignorante da realidade algarvia (como de muitas outras) —, serve
e serve-se de um dispositivo legal que, enquanto jura respeitar a liberdade
artística e aparenta considerar o que está fora dos grandes
centros urbanos, abre vasto campo à acção discriminatória
e ao favorecimento dos já instalados. É um mecanismo que
garante a pura e simples reprodução do sistema.
Como exemplos da operacionalidade deste organismo em prejuízo do
Algarve, podemos referir que chegou a considerar Faro, pela sua aritmética
regulamentar, como equiparável a Lisboa em desenvolvimento cultural.
Ou a invenção “genial” de um sistema de quotas,
que visa a “correcção das assimetrias”, mas
que às artes plásticas algarvias atribui apenas duas possibilidades
de apoio e, ainda assim, paradoxalmente, estas surgem não como
mínimo obrigatório (desde que existam projectos) mas como
o máximo a não ultrapassar.
Outro caso recente protagonizado por este organismo, paradigmático
da falta de consideração pelos agentes culturais independentes,
foi o rocambolesco que rodeou a 11ª edição do Festival
Internacional de Dança Contemporânea —
A Sul. Desde há 14 anos, apresentado, pela associação
DeVIR, este festival foi inviabilizado por mero ‘esquecimento’
na cabimentação da prevista verba. Isto apesar de a DGArtes
ter já financiado a sua pré-produção —
o que, pela ligeireza com que se delapidam os recursos públicos,
e os dos que verdadeiramente fazem a cultura deste país, deixa
a claro outra flagrante falta de respeito pelos agentes algarvios activos.
A DeVIR chegou mesmo a acusar publicamente a DGArtes de negligência,
após o que, finalmente, o serviço deu sinal de vida comunicando,
com o à-vontade de quem tem a faca e o queijo, que todo o apoio
“fica na discricionariedade técnica da Administração”
— justificação lapidar do autoritarismo estatal no
condicionamento da actividade cultural.
A impunidade desta atitude para com o Algarve, aqui em
Faro, só poderia ser relativamente amenizada por alguma acção
da autarquia. No mínimo, dela esperava-se a sensibilização
das autoridades governamentais na defesa dos seus agentes culturais concretos
— pelo menos estaria em coerência com a sua tão propagandeada
ambição de se afirmar como capital cultural do Algarve.
Contudo, por essa altura, o Sr. Presidente da C.M. de Faro, não
tendo ainda completado o desmame do recente glamour allgarvio,
afadigava-se em promover a sua imagem por entre o sensual elenco do negócio
cinematográfico que dá pelo nome de Second Life
— empreendimento comercial (!), ao qual pagou as estadias, as deslocações,
a alimentação e o tempo dos farenses a quem, segundo o produtor,
foi dada a oportunidade de serem figurantes… como se alguma vez
tivessem sido outra coisa durante a longa tragicomédia desta gestão
autárquica.
Este assombroso caso seria risível não
fora a verba atribuída, que nunca há para financiar algumas
das associações culturais sem fins lucrativos do Concelho,
a um negócio que visa a mera e natural obtenção de
lucro por privados (de que a pobre SIC tem parte com a Utopia Filmes)
— legitimando doravante, e para mais, que qualquer empresário
reclame iguais direitos no acesso a fundos municipais para financiamento
dos seus próprios negócios.
Outro aspecto peculiar do fenómeno, que já
começa a ter algo de twilight zone, é o facto de
a cidade apoiar, já há uns anos, a Algarve Film Comission
— que intermediou a ‘coisa’ — com a justificação
de que esta desenvolve a função de atracção
de produções cinematográficas e que, portanto, sendo
bem sucedida, daí adviria benefício económico para
Faro… Mas qual quê! À primeira oportunidade, quando
parecia que o apoio da cidade ia ter finalmente algum retorno, eis que
o seu edil, com a disponibilidade de quem esbanja o dinheiro alheio, avança
e cobre a despesa — colocando em evidência a falta do melhor
critério na atribuição dos apoios à actividade
‘cultural’ (agora já num sentido muito genérico).
E, no entanto, apesar de o executivo apresentar “a promoção
de Faro” como razão de peso para esta tropelia — como
se fosse plausível que as vetustas paredes do burgo sobrevivessem
na memória do espectador e não o esplendoroso espectáculo
de solarengos corpos —, tendo em vista o produto final, o que realmente
se realça é a promoção de pernas, nádegas
e magníficos seios desnudos, tudo o que, enfim, resume o interesse
da película.
Pelo que se pode ir vendo, a cultura regional —
ao sabor dos interesses representados pelas estruturas políticas,
governamentais e/ou autárquicas — segue a boa velocidade
na direcção do hard-core. Não é que
o nu, como o retrato ou a paisagem, não seja uma nobre e ilustre
fonte de inspiração artística; a questão é
que a exploração do erário público para fins
comerciais sem que, de facto, nada com isso ganhe a cultura — excepto
em redundância e mais do mesmo —, parece estar mais próxima
de natureza morta.
Mas nada temam os pessimistas; este panorama, deplorável
tanto para a cultura farense como para a mais básica inteligência
do cidadão contribuinte, ainda está a tempo de piorar. Basta
para isso que, este presidente, incorrigivelmente incapaz de pôr
os superiores interesses do Concelho à frente dos político-pessoais,
veja a oportunidade de, como no filme, ter uma second life que
lhe permita perpetuar a mala arte. (*)
Vasco Vidigal
& Artadentro, Associação
(*)
Este pequeno texto, não pretende ser exaustivo na apreciação
das políticas culturais nacionais ou locais, destinando-se apenas,
a suscitar a reflexão sobre o tema àqueles que por isso
se interessem. No que respeita ao Ministério da Cultura, e aos
organismos dele dependentes, é justo referir que, apesar de o ministro
estar há pouco no cargo, já se tomaram algumas iniciativas
válidas. Será necessário algum tempo para se perceber,
e saber qual, a eventual alteração na “direcção”
da cultura artística no nosso país. Ficam aqui também
patentes, as linhas gerais daquilo que, no nosso entender, deveria ser
uma estrutura de âmbito regional dedicada ao desenvolvimento e ao
acompanhamento real do tecido cultural algarvio existente — nomeadamente,
à actividade artística dinamizada pelo associativismo da
região. Quanto ao ‘fenómeno’ cultural farense
referido no texto, ele aponta para a pertinência do nosso projecto
artístico Incito que tem a C. M. de Faro como “espécime”
preciosíssimo para uma futura rigorosa observação
laboratorial. Qualquer informação que, eventualmente, permita
corrigir os factos referidos é sempre bem vinda.
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