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Faro não é Faro!

     
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Tinha a Artadentro pensado suspender o seu projecto artístico Incito durante a época eleitoral — por achar que, enquanto agentes culturais independentes (embora a actividade artística tenha sempre, nalgum grau, uma certa dimensão política), marcaríamos assim de equidistância a nossa relação com a disputa partidária —, quando a ofensiva demagógica do nosso Apolinário, ao instrumentalizar a cultura e seus agentes, usurpando as suas realizações enquanto os discrimina com fins eleitoralistas, vem legitimar esta nova peça como acrescento ao acervo Incito.

Segundo o autarca, o cabal cumprimento das suas anteriores promessas foi inviabilizado pela ‘desarrumação’ com que na autarquia deparou ao entrar a funções. Portanto, este político, horrorizado por tamanha desigiene, deu mostras de coragem, só comparável à de Hércules diante os estábulos do rei Áugias, tendo passado todo um mandato de touca e avental, a arrastar mobiliário, varreu e encerou, a desinfectar a suja herança. Claro está, na azáfama, para lá da costumeira satisfação de clientelas, os compromissos assumidos com os farenses, nomeadamente a propagandeada aposta cultural, nunca os honrou.

Com efeito, essa suposta ‘aposta’, parece ter ficado resolvida com o convite ao pintor Manuel Baptista para reassumir a programação da Galeria Municipal Trem, motivada não por genuíno interesse na Arte Contemporânea e seus agentes, mas pelo aproveitamento do prestígio do carismático artista farense — certamente crendo ter obtido junto da massa eleitoral, o álibi perfeito para as sequentes tropelias em prejuízo do real desenvolvimento cultural e artístico do Concelho.

De facto, em matéria de cultura, além da traição a Faro e às suas instituições (pelo faltoso apoio prometido; pela conivência com a desconsideração Allgarvia e com a negligência do Ministério da Cultura; pelo sorvedouro de recursos em que se tornou o Teatro das Figuras; pela decadência do Teatro Lethes; pelas perturbações na Orquestra do Algarve; pelas feiras e animações, ou pelos tristes casos de ‘arte pública’, assunto a pedir análise própria), só recordamos dois marcos, ambos relacionados com o património monumental. Um, na tão divulgada reabilitação do Palácio de Estói, várias vezes re-inaugurado, que acabou entregue às Pousadas de Portugal, fazendo daquela peça única do nosso património mais outro hotel reservado a endinheirados — inviabilizando a sua fruição à esmagadora maioria dos munícipes! —, num negócio onde o que pertence a Faro é ‘emprestado’ a uma empresa (privada a 49%), para que renda por muitos e bons anos; o segundo caso marcante, esteve na complacência com que o edil assistiu, mesmo defronte da sua janela camarária, ao alindamento exterior da Sé Catedral de Faro, o mais precioso monumento histórico farense — trabalho feito por serventes, sem projecto, à revelia de qualquer tipo de autorização/fiscalização, da C.M.F. ou do Ministério da Cultura/IPPAR-Direcção Regional de Faro.

Claro está, para o empreendedor Apolinário, a cultura apenas interessa enquanto pretexto fácil e prático, para desvio dos dinheiros municipais, nas barbas dos farenses, em proveito de interesses político-pessoais. É o que se passa na atribuição de apoios financeiros aos folks ‘bem comportados’, enquanto os agentes culturais que se manifestam publicamente duma forma crítica fundamentada, vêm o prometido negado na tentativa de abafar a sua existência — mesquinhez exuberante que revela grande falta de cultura democrática, contradizendo descaradamente o alardeado amor pela liberdade. Mas também o pretexto cultural foi usado em benefício de negócios privados: como se verificou com o Second Life; ou como se poderá vir a verificar, caso haja oportunidade, na ‘operação cultural’ de 20.000.000,00 de euros municipais, com que promete acudir ao ruinoso negócio privado do Centro Comercial Atrium; pasmosa promessa eleitoral que nos garante que a câmara, já transvestida em produtora/promotora ‘empresa’ de feiras e romarias, irá investir os nossos dinheiros no mercado imobiliário e na exploração de centros comerciais!!!

Não obstante, se a mediocridade da acção política deste homem se restringisse ao sector cultural — embora já suficiente e flagrante sintoma da falta de qualidade imprescindível à presidência da capital algarvia —, menos mal iria Faro. Mas, o caso é que o seu higiénico executivo afectou a generalidade dos sectores, acentuando o retrocesso do Concelho. Aliás, a triste realidade é reconhecida pelo edil, a avaliar pela desorientação que se lê no recurso a todos os truques, desesperado por, mais uma vez, enganar uns eleitores: ele é o look Obama — anulação de bigode, bronze em mangas de camisa, dentito evidente e pose a três quartos de braço cruzado; ele é o discurso estridente e agressivo no debate — quando não há obra nem ideias, ataque-se o opositor sem o deixar falar; são os cartazes prometendo obras cujo valor total daria para comprar meio Algarve e invadir o restante; ou, por exemplo, os enigmáticos slogans, verdadeiros case study de vago vácuo mental e esperteza caloira.

A este respeito, realçamos o insipidíssimo “Fazemos” que, associado a imagens de maquetas, não é ‘fizemos’ nem ‘faremos’, mas uma espécie de tóxica nuvem equívoca com que se pretende apolinar o farense mais descuidado. Contudo, para terminar com a demonstração definitiva da razoabilidade destas apreciações, reservámos o espectacular, em redundante, “Faro é Faro”, orgulhosamente subscrito pelo edílico Apolinário — e merecedor da classe dos mais deselevados lemas eleitorais de sempre. De semelhante frase poder-se-ia pensar ser veículo de uma hipnotética mensagem subliminar, porém não se vê qual, a menos que só para iniciados. Pode tratar-se de massajar o orgulho farense, levando votante a lamentar comovido, quiçá, o candidato olhanense; ou, então, esticando a hermenêutica, talvez apenas pregue a desutópica convicção de tudo ter sido feito e/ou não haver nada a fazer pela capital do Algarve. Entretanto, o eleitor perplexo na matuta, tentando arrombar tal enigma, ouve atónito o candidato Apolinário a fasciná-lo dentro de um ecrã televisivo com a singela chave na boca: “Faro é Faro, porque não é Tavira, nem Olhão, nem Loulé...” — e, não fora o corte providencial, logo com salto para outro tema, na sua língua designaria, uma a uma, qualquer cidade que não fosse Faro (pelo menos, ainda!). Enfim, ao amainar a gargalhada fatal, o farense aliviado e esclarecido, maxilares dolorosos e em caimbras estomacais, vislumbra que a reeleição deste auto-autarca lhe garante anedota à grande, mas não o futuro que deseja para Faro.

De facto, se tudo isto traduz um sonho que o candidato possa querer ver realizado, então será melhor avisá-lo de que, para nós, este Faro não é Faro. (*)

Vasco Vidigal
& Artadentro Associação

 

(*) A Artadentro, associação cultural independente, s.f.l., que em 6 anos de intensa e contínua actividade nunca beneficiou de um cêntimo de financiamento da autarquia farense, redige este texto com o objectivo de suscitar e estimular a reflexão àqueles que pelo seu tema se possam interessar. Quanto à evolução do ‘fenómeno’ farense, ele sublinha a pertinência do nosso projecto artístico Incito — que tem a C. M. F. e seus protagonistas como espécimes preciosíssimos sob rigorosa observação laboratorial. Qualquer informação que permita corrigir factos referidos, dar deles nova interpretação ou acrescentar outros que eventualmente se contraponham, é sempre bem vinda. Este projecto artístico continuará, conforme inicialmente previsto, seja qual for o resultado eleitoral.

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