Metáfora Prática
O
exercício conseguido da arte depende da assumpção
de um ponto de vista sobre a experiência da vida na realidade
a que acidentalmente se teve direito. Esta não tem cabimento
sem um esforço de representação — e não
apenas como mera reacção ao que, por vezes de tão
patético, se pode tomar como provocação.
A metáfora é então um meio de protecção
contra o absurdo quando o que está em causa é revelar,
expôr e descodificar o que se oculta atrás do que
surge como trivial. Sem explicar nem justificar. Resposta e proposta,
desafio talvez, sem muita proposição.
Os
instrumentos/materiais com que se monta a desmontagem são
os do mundo, seus processos e finalidade. Seriação,
estridência, arrumação, higiene, o rigor brilhante
das aparências e, em surdina, o obscuro e complexo labor
do mesmo, multiplicado em variedade, sempre em encenação
— gestos e comportamentos. Utopia de ubiquidade e de omni-apropriação.
E ao seu serviço toda a simbólica e um imaginário
totemizados; fetiches, imagens canonizadas, objectos-mercadoria
e o mais que lhes vem agarrado — valores que mobilam e mobilizam
a experiência ordinária da vida urbana, burguesa,
cosmopolita, num mundo saturado, divergente e concentracionário.
Excitação, divertimento, distração,
segurança, ocupação. O desejo e neste a tendência
para a queda no lugar comum — centrípeta satisfação.
Na revelação
operada pela metáfora se mostra o jogo em que está
implicada e envolvida a identidade do observador. É perante
ela, assim devolvida, que este se pode reconhecer comprometido
e (auto) regulado por regras subtis, tão totalitárias
quanto eficazes ; regras implícitas que comandam o que
e como fazer, dizer, sentir, pensar e agir, e
ainda o que não sentir, o que não fazer…
Depois,
frente ao desmontado e ao humor lúdico da ironia, o silêncio
e o branco emergem por contraste; os do vazio que fica
da diagnose e os do caos que se revolve, efeito quase
inconsciente, perante o reflexo invertido. O silêncio e
o branco de um espelho fora do alcance da visão. Descobre-se
aí qual é o ponto de vista — o simples lugar ou
o espaço liso, imaculado, para projecção.
E o ponto de partida. O sítio nu do sujeito gramatical;
não o de toda a identidade, mas de muita daquela que a
todos, nalgum momento, pode servir. Portanto, também, ponto
de encontro.
É
desse lugar primitivo povoado de desocupação que se
procede à recolha das partes, peças do mundo quotidiano,
como de salvados; canibalismo, retoma, reciclagem. Alegoria da novidade
e da sua efemeridade. É daí também que se pode
assistir às operações de devolução,
por re-enfoque/distorção, que rearticulam, desfuncionalizam
e recontextualizam a realidade. O esventrar e o exibir do avesso
as rotinas, os segredos e os vícios banais; marcas, sintomas
e sinais do que pretende uma dignidade que só se obtém
na condição do esquecimento de si.
Correção
por obliquidade. Para além de uma semiótica da alienação,
e do seu resgate para memória futura — para que não
se esqueça em vão —, do trabalho de Joana Vasconcelos
creio que é justo deduzir uma afirmação muito
própria de um essencial amor de si , que é
fundamental preservar, e que passa pela atenção e
compreensão das circunstâncias e pela consciência
dos valores da cultura branqueados pelo uso. Sem complacência
nem neutralidade. Aceitação crítica e auto-crítica:
uma philia que não pode manter-se nem sobreviver
sem o exorcismo constante da banalidade. A esta a metáfora
prática dá uma vida que desconhece.
A alegria
da construção no mundo de uma contra navegação.
Manuel
Rodrigues, Junho 2004
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