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POORTUGAL experiências
não faltam |
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Para quem trabalha na área cultural, o que ressalta do fenómeno Allgarvio, é a inequívoca certeza de haver dois países: um, que abrange a região de Lisboa e Porto, onde se concentram as instituições de referência — museus, fundações, galerias, escolas de arte, apoios estatais e, claro está, os artistas; outro, POORTUGAL, o restante país (de onde se emigra para a capital ou ao estrangeiro) e onde o interesse pela acção cultural/artística é negligenciada e/ou desencorajada, todo ele palco apenas da produção autorizada, se ou quando por benesse surge — e que, supostamente, se deve aplaudir com entusiasmo e, agradecendo de forma humilde, pedir por mais com ansiedade. No Algarve agora, a cada ano, durante a época balnear, as associações culturais, para as quais o estado e as Câmaras Municipais se mostram, por tradição, pobres e indisponíveis, assistem da berma da rua à sumptuosidade posta à disposição da iniciativa do Ministério da Economia e Inovação, vincando a diferença entre um Allgarve de Verão, abastado, e esse outro, mais a bastardo, de Outono/Inverno, o POORTUGAL do costume. Com efeito, ao reflectirmos sobre o Allgarve, salta ao olhar um denominador comum — a pobreza. É a económica pobreza do país que motiva a iniciativa; é a da falta de consideração pelo Algarve que lhe dá o nome; é a pobreza de espírito, que se propõe trazer a esta região um life-style de duvidosa qualidade; é a mirrada escassez de espírito democrático, que descrimina o associativismo local e promove a ‘sovietização’ cultural na região; e é, finalmente, uma miséria, o que resulta da falta de rigor com o que se gasta em projectos de alcance tão curto como as vistas e, além disso, sem qualquer fruto futuro. Mas é, também, a indigência do espectáculo das vaidades pessoais, mais ou menos carreiristas, dos bacocos protagonismos em gravata, das inclusões e exclusões, das apropriações e das inviabilizações. De facto, a miséria da abordagem Allgarvia é
tão notória, que aquilo que tem de melhor é o modo
como realça o astigmatismo oficial sobre as questões culturais.
Para quem por isso se interessa verdadeiramente não deixa de ser
um momento apoteótico do apocalipse poortuguês; aí,
no Allgarve, através da desconsideração implícita,
se desvela a efectiva pobreza do tecido cultural local — escondida
pela demagogia política, estatal e autárquica —, ao
ignorar as instituições existentes ou relegá-las
a um papel de, quanto muito, meros amparos laterais (naquele que é
o maior atestado de incapacidade, de que há memória, lavrado
aos agentes culturais do Algarve); aí, também, se manifesta
a miséria do ‘conceito oficial’ que o gerou, ao referir-se
a cultura como factor de crescimento, como convém à cartilha
economicista, porém, misturando eventos artísticos num programa
de entretenimento/promoção turística — e a
turistas exclusivamente destinado! —, visando o interesse dos melhor
localizados, em vez de a todos acrescentar em humanidade; aí se
revela, para mais, outro mau exemplo dado à política local
— com a chancela da autoridade governamental e o selo da nobre casa
de Serralves —, ao conferir força de referência à
recente intuição institucionalizada de que cultura é
coisa clean, de bouffet, preferencialmente de curto
prazo, pop mix pronto a servir, em ‘clima festivo’
ou ‘convidativo’; aí se confirma, enfim, a existência
de uma paupérrima cultura de regime, em que estado e autarquias
(detentores únicos dos meios públicos, financeiros e logísticos)
têm também a exclusividade de decisão, segundo critérios
nada claros e/ou em permanente mutação, sobre quem/o quê
deve ser apoiado, impossibilitando, regra geral, quaisquer actividades
livres do estigma da subserviência. Embora compreendendo o melindre da situação (pois não é simpático cortar a onda ao empreendedor Manuel de Pinho), o caso é que, quando se constata que Allgarve tem meios financeiros, públicos, muito superiores aos anualmente dedicados à cultura do Algarve — superiores aos destinados a “Faro, Capital Nacional da Cultura 2005”, negativamente apreciada pela Lisboa que a sabotou — e que, já em 2008, a arte contemporânea — um dos componentes do programa Allgarvio —, não merece um único tostão (!) de apoio, para toda (all) a região, o que se sente é a falta de real interesse do Ministério da Cultura por todos (all) os que quotidianamente operam no terreno. A própria Universidade do Algarve, que forma agora os primeiros alunos em Artes Visuais, encontra-se na iminência de, por falta de condições para potenciar os talentos aí formados, ver todos (all) os seus licenciados compelidos à secular migração, contribuindo assim, involuntariamente e em evidente contra-natura, para a perpetuação do empobrecimento cultural e económico. Será que à gente da região não é outorgada vocação para a criação artística e cultural? Mas também não se pode ignorar a postura
da C. M. de Faro. Em indigência financeira crónica, este
município mostrou, pela segunda vez (enquanto negligencia o dever
de apoiar os seus agentes culturais), uma sua outra pobre faceta —
a do mendicante provincianismo perante a iniciativa do Ministério
das Inovações. De facto, a falta de sensibilidade cultural
mais a ânsia de a mascarar, a urgência de mostrar trabalho,
não havendo vontade de o fazer de forma séria e informada,
e a aparente ocasião de protagonismo, fácil e grátis
— mais à boleia do prestígio que a Fundação
do Porto traz —, levaram o actual executivo camarário a aderir
sem piscar olho. Em boa hora, dir-se-ia… E, de facto, negociou,
disponibilizou espaços e meios que não cede aos agentes
culturais do concelho; comprometeu pessoal autárquico e fundos
que diz não poder atribuir às instituições
locais; enviou convites para a inauguração e, porém,
de súbdito indignada, demarcou-se do evento, numa demonstração
cabal da penúria política da actual gestão, afinal,
paradigmática representante do Poortugal em que
vivemos e da ‘cultura’ que nos servem.(1) Vasco Vidigal
(1)
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